O que faz de ti alguém com profundidade?
Rodrigo G. GomesQuantas vezes foste conhecer uma pessoa, e a pessoa parecia não ter alma? Não digo isto no sentido de ser um psicopata, mas não no sentido de não ter nada dentro dela, de parecer ser uma pessoa vazia, sem profundidade... Alguém extremamente superficial. Isso é comum.
Mas como é que nós deixamos de ser superficiais?

O primeiro passo, obviamente, é o mais difícil: admitir que nós somos seres superficiais. Isso magoa-nos o ego um bocadinho, mas é importante admitir que nós podemos ser a pessoa que é superficial, que não tem alma, que não tem substância...
Mas é justo termos a oportunidade de deixarmos de ser superficiais e de aprendermos a explorar a nossa própria profundidade enquanto pessoa, enquanto indivíduo.
O primeiro passo, a partir daqui, é a vulnerabilidade: sermos vulneráveis connosco e com as pessoas que conhecemos. Sermos capazes de desenvolver essa capacidade. Claro que não precisamos de discutir logo níveis muito pessoais, mas é bom estarmos confortáveis com quem nós somos, com as nossas inseguranças, com as nossas vulnerabilidades, e com os nossos defeitos, principalmente.
Ser vulnerável não é fácil. Nós temos, acima de tudo, uma vontade de proteger o nosso ego, uma vontade de nos protegermos da dor e do desconforto. Por isso é que, muitas vezes, quando nos perguntam qual é um defeito que temos, nós apontamos algo que não é realmente um defeito.
Por exemplo, algo simples e ingénuo como descrever perfecionismo como um defeito. Ou algo resultante de ego ou de uma falta de autoconsciência, quando alguém cria uma imagem idealizada e moralmente superior de si numa atitude de arrogância disfarçada de humildade quando diz "o meu defeito é que eu sou demasiado boa pessoa".
Isso não são defeitos. Já revelam algo sobre a pessoa, mas não são defeitos.
Um defeito, um verdadeiro defeito, é algo que tem a capacidade de arruinar a nossa vida e de magoar as pessoas de quem gostamos.
Então, como é que nós exploramos a nossa profundidade, e de que forma é que podemos expressar essa profundidade?
Termos a capacidade de sermos vulneráveis é o que expressa a nossa profundidade. Isto, porque nos sentimos à vontade para nos darmos a conhecer a outras pessoas. Mas o processo começa ainda antes de sairmos de casa...
Começa quando estamos no nosso quarto, a sós, sem mais ninguém, e dedicamos tempo para pensarmos sobre nós mesmos, com base em duas questões. A primeira questão é:
Quem és tu?
Esta é uma questão que normalmente colocamos de forma filosófica. A nossa tendência, além de ficarmos confusos ou atrapalhados com a resposta, é de começarmos a descrever aquilo que é superficial sobre nós. O meu nome é Rodrigo, sou autor, gosto de filmes de terror e várias bandas de metal, e sou de Viseu.
E pronto, é isso. Isso sou eu.
No entanto, isto, não só é aborrecido, como também não sou eu. Isto é, no fundo, uma espécie de uma identidade que eu criei para vaguear por este mundo feito de identidades e de realidades e de versões da realidade. Mas para ser capaz de explorar a minha profundidade, eu começo com essa questão.
Mas essa questão tem de ser colocada de uma forma mais objetiva do que subjetiva ou filosófica. Podemos, por exemplo, começar por criar uma lista de três qualidades nossas. Essa parte é fácil.
Podemos dizer que somos uma pessoa bonita, amável e simpática. No que diz respeito a qualidades, até podemos olhar para a questão de forma superficial, porque todos nós já temos perfeita consciência de todas as nossas qualidades (e de mais alguma, incluindo aquelas que só existem no espelho que temos em casa).
Ou seja, não são assim tão importantes aqui. Uma lista de qualidades é só para nos fazermos sentir melhor, e para não ficarmos tristes com o que vem a seguir...
...que é criar uma lista de três defeitos nossos. Verdadeiros defeitos. Defeitos que têm a capacidade de destruir a nossa vida e de magoar as pessoas de quem gostamos. Pensa em três desses defeitos teus.
Esta é a parte em que começa a doer. Esta é a parte em que te esfaqueio o coração e começo a contorcer a faca para começar a sangrar. Mas a parte boa disto é que o veneno da superficialidade vai começar a sair de dentro de ti.
Isto é o tipo de coisa que tu fazes quando estás a sós no teu quarto, sem ninguém à tua volta. Podes pegar num caderno e escrever a tua lista de defeitos e de que forma é que esses podem magoar-te a ti e aos outros. É um caderno que só tens acesso e que só tu podes ler, e no qual só tu podes escrever.
Depois, pensa na origem desses defeitos. Qual é que é aquele fragmento de vidro que tens dentro de ti, e que te custa a tirar porque te corta por dentro, mas que é a origem dos teus defeitos e que está na origem das dificuldades que sentes no que diz respeito aos teus relacionamentos?
Talvez seja alguma coisa da tua infância, algum trauma, algum evento negativo e marcante da tua vida que te fez ser quem tu és, e desenvolver esses defeitos. Talvez seja a educação que tiveste em criança.
Quando temos consciência dos nossos defeitos e da origem desses defeitos, agora temos controlo sobre eles. Agora, conseguimos fazer alguma coisa quanto a isso. Claro que nunca vai ser confortável, nunca vai ser agradável, mas não deixa de ser importante.
A verdade é que nós temos uma escolha: conforto, felicidade, harmonia e entusiasmo constante e interminável, ou... algo real. No mundo real não existe luz sem escuridão, não existe felicidade sem tristeza, não existe conforto sem desconforto.
Nós passamos pelo desconforto deste processo para conseguirmos descobrir o conforto de crescer enquanto pessoa e de sermos capazes de desenvolver melhores relações com as pessoas de quem gostamos e que vamos conhecendo.
Agora que já tens consciência dos teus defeitos e da origem desses defeitos, já consegues fazer alguma coisa quanto a isso. E isso também vai ser desconfortável.
Por muito que estejas a crescer, e só isso já dói muitas vezes, a parte mais desconfortável é as decisões que vais tomar, porque essas tuas decisões (que vão resolver esse teu problema) vão ter consequências. E essas consequências nem sempre são boas ou confortáveis.
A longo prazo, a consequência vai ser positiva, vai ser permitires-te crescer, vai ser a tua oportunidade de cresceres enquanto pessoa, mas em contrapartida, talvez tenhas de abrir mão de certas amizades ou de certas relações que tens com pessoas próximas ou que já conheces há muito tempo. Talvez até membros de família.
Talvez a origem dos teus defeitos sejam os teus pais. E se calhar a melhor coisa que podes fazer agora, que já não és uma criança, é criares alguma distância dos teus pais.
Eu não estou a dizer que deves fazer isso. Eu não estou a dizer que tens de fazer isso, eu estou a dizer que é uma opção. E esse é um exemplo que serve para aqui, porque, normalmente, as pessoas não estão dispostas a fazer isso pelo facto de serem os próprios pais. Ninguém gosta da ideia de cortar relações com os próprios pais.
Mas, a meu ver, se a minha mãe é a origem dos meus defeitos e se crescer significa abrir mão da minha relação tóxica com ela, então é isso que eu vou fazer. Porque se ela não fosse minha mãe, se ela fosse uma namorada, isso seria a coisa certa a fazer. E toda a gente compreenderia ou apoiaria essa decisão. Quando se trata de uma mãe, as reações podem ser diferentes, mas a questão continua a ser a mesma.
Outra vez, eu não estou a dizer que tens de cortar relações com os teus pais, ou que deves fazê-lo, mas estou a dizer que é válido. Tu tens essa liberdade. Tu tens a liberdade de afastar aquilo que, para ti, é ou é suposto ser ou parece ser o mais importante, ou o mais essencial na tua vida.
Porque as coisas e as pessoas de quem tu gostas nem sempre gostam de ti, e isso simplesmente descreve o mundo real.
Nós, obviamente, vamos ter sempre defeitos. Nunca vamos ser um ser perfeito, porque nós pertencemos à espécie humana... Nós somos macacos. Vamos sempre desenvolver novos defeitos, mas sempre que passarmos por este processo de criarmos uma lista de qualidades, uma lista de defeitos, e de pensarmos na origem desses defeitos...
...desde que tenhamos capacidade de passar por este processo, vamos sempre ter a capacidade de crescer enquanto pessoa, e esses defeitos nunca vão atrapalhar muito a nossa vida e as nossas relações.
Claro que nem toda a gente está disposta a fazer isto. E, muitas vezes, vamos conhecer pessoas que não estão dispostas a fazer isto, vamos conhecer pessoas que não estão dispostas a crescer. O que é que fazemos quanto a isso? Não fazemos nada. Agradecemos pelo tempo da pessoa e vamos embora.
- Então, a primeira questão é: quem és tu?
- A segunda questão é: quem é que tu vais ser?
A primeira questão foi o início deste processo. A segunda questão é o final deste processo. Quando tu pensas em quem tu és e depois pensas em quem tu queres ser, passas a ter um norte, um guia, que és tu.
E tu passas por esse processo de descobrir quem tu és, a tua profundidade enquanto pessoa, a olhar para quem tu queres ser, a olhar para o teu objetivo. E o teu objetivo é crescer e tornares-te aquela pessoa que tu vais ser.