Autores/as conseguem viver da escrita...

Rodrigo G. Gomes

O propósito da Comunidade Autónoma de Escrita é a iniciativa de criar isso mesmo, uma plataforma de ajuda a autores e autoras deste nosso mundo literário em Portugal, com a partilha de conhecimento sobre escrita, edição e venda de livros com base em experiência própria documentada.

O objetivo é dar mais poder e valor a todas as autoras e autores para que o próprio sucesso dependa só do próprio conhecimento e da própria capacidade de autonomia. E isto, enquanto podem desenvolver parcerias com outros membros de forma a tudo ser possível dentro da própria comunidade, evitando a exploração de livrarias e editoras.

Fazendo com que, aliás, os próprios autores e autoras tenham a capacidade de se tornarem as próprias editoras e livrarias.

Até agora, toda a gente te disse que viver da escrita é impossível. Eu estou aqui para te dizer: vamos descobrir de que forma é que se torna possível.

Deixa-me explicar melhor…

Eu sou autor, porque a minha “alma” assim decidiu, e uma coisa que rapidamente percebi quando me tornei autor há 10 anos é que nós somos explorados por livrarias e editoras.

Por exemplo, e tu deves saber disto, se eu tiver um livro à venda na Bertrand a custar 10€ e tu compras, o que acontece é o seguinte: 50% (5€) vai para a Bertrand, 50% (5€) vai para a editora e... 10% desses 50% é que vão para mim. Eu que escrevo, edito, sou responsável por vender o livro (ninguém o faz por mim) e pago por todos os custos de produção. Eu que tenho todo o trabalho, no fundo, sou um escravo.

A minha editora, curiosamente, explicou-me uma alternativa a isso no início. Eu podia fazer uma edição de um livro, imprimir por exemplo uma edição de 50 exemplares, e comprar esses 50 exemplares à editora para revender eu. É uma excelente alternativa. O custo de venda de um dos meus livros é 12,50€, ou seja, em vez de 0,50€ por venda, faço 2€. Ainda assim, eu tenho de pagar 525€ por esses exemplares.

Mas aos poucos entendi uma coisa: não é uma alternativa assim tão boa. É uma excelente alternativa para eles que não estão tão dependentes das livrarias, mas para um autor... é apenas uma alternativa que lhe permite ter algumas cópias para vender a família e amigos, e dizer que escreveu um livro. E isto porque a esmagadora maioria dos autores sabe escrever, mas não sabe vender.

Um autor é um escritor, não é um salesman ou um génio do marketing. Mas se queremos ir além dos amigos e da família, não podemos ficar limitados a saber só escrever.

Quando percebi isto, decidi que não ia ser só um excelente escritor, mas também ser excelente na parte de negócios de ser autor. Ia saber vender bem os meus livros. Aprender tudo o que há para aprender. Construir o meu próprio site, criar essencialmente a minha própria livraria para os meus livros e começar por criar ofertas em que ofereço conteúdo extra além do livro pelo mesmo preço de forma a competir com as livrarias.

E gerir os meus números: os custos de produção e formas de os diminuir, o lucro e formas de o aumentar... tudo exatamente como um negócio. Comecei a olhar para mim como alguém que não só um escritor, mas um completo autor.

Outra coisa que fui percebendo aos poucos é que a esmagadora maioria dos leitores/as não faz a menor ideia de como as coisas funcionam, então limitam-se a apoiar as livrarias (porque é o que toda a gente faz, o que é conveniente para as livrarias) e a permitir que as coisas continuem como estão.

Ou seja, os autores e autoras (que são escritores/as e não trabalham com vendas nem são génios do marketing), estão numa posição em que não têm escolha. A única opção é as livrarias. E o facto de que os leitores não têm consciência de como tudo funciona permite que elas continuem a explorar os autores e autoras. É um ciclo que se reafirma.

E cabe a nós educar os nossos leitores e leitoras sobre a nossa realidade. Se é importante para nós, é importante para eles também.

As editoras, então, aproveitam-se da ignorância dos autores/as para se fazerem valer. Tudo o que uma editora faz, eu consigo fazer. Só preciso de aprender a fazer. Eu que só queria ser escritor e que nunca fui um salesman ou um génio do marketing. Se aprender a fazer, passo a saber fazer. A maioria dos autores não sabe muito além de escrever, então as editoras aproveitam.

Um autor consegue comprar um ISBN, editar e imprimir o próprio livro, e vender. Um autor consegue fazer tudo, se aprender a fazer. Tudo o que uma editora faz, um/a autor/a consegue fazer. Alguns já sabem o suficiente para autopublicar, mas lá está... não sabem vender. Eventualmente, desistem de tentar.

Eu falei com uma advogada e percebi que o criador de uma obra (qualquer tipo de obra) artística é protegido por lei. Basta haver provas de que foi o próprio que criou e tem a sua obra protegida por lei. Quando um autor se junta a uma editora, está essencialmente a oferecer o controlo da sua obra (que é propriedade intelectual - coisa que poucos autores parecem entender) à editora.

Em Portugal, nós não temos muita gente a educar ou a explicar conceitos como propriedade intelectual. Nós confiamos em empresas mais do que confiamos em nós mesmos. Nós temos literal propriedade intelectual nas nossas mãos, pronta a ser distribuída, e estamos a dá-la de mão beijada a quem só quer saber de lucros e que não se importa realmente connosco. Como um pássaro que entra numa jaula por vontade própria.

Então, o propósito deste projeto é criar uma plataforma onde os autores/as aprendem tudo o que precisam para se tornarem a própria editora e a própria livraria, tirando essa gente do meio da relação que é realmente importante: autor-leitor. Diria que livrarias e editoras não precisam de "fazer de vela", só precisam de entender que têm de sair da frente.

E, assim, um autor ou uma autora tem também toda a liberdade do mundo para criar a sua obra exatamente com a visão que tem dela. Não há censura. Não existe sequer o conceito de rejeição. Se tu queres que o teu livro exista, ela vai existir. E vai existir da forma que tu queres que ele exista.

A ideia do projeto é uma plataforma para autores e autoras onde os próprios aprendem e ensinam passando o conhecimento que têm, seja a nível de escrita como a nível de negócios. Uma "comunidade autónoma de autores/as". Com conteúdo educativo em vídeo e/ou texto baseados em anos de experiência própria. No fundo, uma plataforma para todo e qualquer autor/a.

Desta forma, um/a autor/a torna-se capaz de escrever, editar, fazer o próprio marketing criando a própria marca, e vender diretamente aos próprios leitores/as através dos próprios sites. Uma plataforma que oferece tudo aos autores para que estes sejam capazes de criar os próprios negócios e fazerem o impossível: viverem da escrita.

E nós, por algum motivo, convencemo-nos uns aos outros de que é impossível. Mas é possível. Quem diz ser impossível não é autor ou é um autor que nunca conseguiu, então não quer ver ninguém a conseguir porque isso magoaria o ego frágil de gente fraca.

Vemos isso a acontecer, especialmente, em Portugal. Não suportamos ver o sucesso de outros quando não conseguimos alcançar o nosso sucesso.

Aliás, com base numa pesquisa que tu também podes fazer através de ferramentas de IA, as livrarias e editoras lucram entre 10 a 20 MILHÕES DE EUROS POR ANO só com a venda de livros em Portugal.

E isto enquanto nos convencemos de que quem escreve esses livros não consegue viver da escrita. Ninguém neste mundo há de conseguir convencer-me de que os autores e autoras não conseguem viver do seu trabalho.

Todas as editoras do mundo podem continuar a convencer toda a gente de que é impossível um/a autor/a viver do seu trabalho enquanto são elas mesmas que tornam isso impossível, mas a mim não me convencem.

Com uma comunidade, evitamos também todas as editoras e plataformas de autopublicação que tentam ser muito “inovadoras” quando dizem "faz connosco que nós é que somos baratos e justos". A intenção aqui é fazer precisamente o oposto disso. Em vez de "faz connosco", é "faz tu, porque tu consegues fazer. Eu só te vendo a pá para ires escavar o teu próprio ouro com o teu próprio esforço".

Autores e autoras são a última verdadeira legião de intelectuais. Nós não acreditamos em milagres, então em vez de milagres, seguimos uma filosofia de vida: é o nosso próprio trabalho que alcança o que queremos alcançar. Os outros não se importam com a nossa obra como nós nos importamos com a nossa obra.

Tendo em conta que a "Dead Internet Theory" (uma teoria que diz que grande parte da Internet deixou de ser composta por pessoas reais e passou a ser dominada por inteligência artificial e conteúdo gerado automaticamente) está mais real do que nunca com todo o conteúdo de IA, o futuro da internet baseia-se em plataformas e comunidades, "bolhas" de humanos dentro do vácuo da internet, como planetas dentro do vácuo de um universo.

Clica aqui para seguires para o segundo e último texto desta introdução, onde explico de que forma é que começamos isto e o que posso fazer por ti desde já: Começamos desta forma...