Temática: O verdadeiro significado de uma história
Rodrigo G. GomesO verdadeiro propósito de uma história não é contar os acontecimentos descritos numa sinopse. Essa que é apenas a camada mais superficial de uma narrativa, a camada que nós lemos num livro ou vemos num filme.
Aquilo que dá substância e profundidade a uma história é a temática da mesma. Esta que é a camada mais importante de uma história, esta que é a alma de uma narrativa. A temática de uma história é o que dá oportunidade ao leitor de interpretar a narrativa e de retirar algo dela para si.
A temática é que faz de uma história aquilo que ela deve ser: um espelho que reflete a experiência humana.
Vamos então entender o que é e como estabelecer a temática de uma história, esta que é um dos elementos mais subestimados pelos escritores e autores deste nosso mundo.

Primeiramente, vamos estabelecer a definição de temática e a distinção entre ela e uma sinopse de forma a deixar claro do que é que estou a falar.
Uma sinopse descreve os acontecimentos de uma história. É a descrição que lemos na contracapa de um livro, e que nos diz, explicitamente e livre de spoilers, o que nos espera dentro da narrativa.
Por exemplo, a sinopse do livro The Shining do Stephen King: "Jack Torrance consegue um emprego num velho hotel, e acha que será a solução dos seus problemas e dos da sua família - as dificuldades vão ficar para trás, a sua mulher vai deixar de sofrer e o seu filho, Danny, vai poder voltar a respirar ar puro e ultrapassar as estranhas convulsões. Mas as coisas não são tão perfeitas como parecem - existem forças malignas a pairar nos antigos corredores. O hotel é uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança, e, inevitavelmente, um confronto entre o bem e o mal vai ter que ser travado."
Temática é o conjunto dos temas de uma composição literária. É o conjunto de temas, não é um só tema. E é um conjunto de temas que dá profundidade a uma história. Gosto, até, de dizer que a temática é a verdadeira história de um livro. Aliás, poderá ser justo dizer que há sempre duas histórias a serem contadas dentro de uma mesma narrativa de um mesmo livro bem escrito.
A temática é o reflexo que acrescenta significado aos acontecimentos de uma história. É a descrição que guardamos para nós, enquanto autores, e que só é sentida e interpretada pelos leitores de forma implícita. É através dela que os leitores sentem que estão a ler algo pessoal, humano e real.
É através dela que os leitores sentem que estão noutro mundo enquanto leem. É através da temática que um leitor encontra aquilo que há de mais importante para si dentro de um livro. É através dela que um leitor se encontra dentro de uma história.
Por exemplo, no livro The Shining do Stephen King: a história envolve temas como paternidade, vício, abuso, e inocência (e a quebra da mesma). O Jack Torrance é um pai que luta contra o alcoolismo, vício esse que está a afetar negativamente a família e, especialmente, o filho.
A história retrata um pai aterrorizado com a ideia de ser ou de se tornar um mau pai. Retrata a experiência inerentemente humana e masculina de um homem com medo de falhar enquanto pai. Trata-se de um homem aterrorizado com a ideia de perder controlo por ter consciência das consequências disso para a própria família.
Esta, pelo menos, é uma interpretação da história do livro. Tu podes ler o The Shining e ver algo mais, ou algo completamente diferente. E aquilo que nós vemos pode ser o oposto daquilo que o Stephen King estabeleceu antes de começar a escrever. E é isso que torna tudo ainda mais interessante.
A temática é um conjunto de temas que fazem parte da experiência humana de forma universal, independente de cultura ou época. São temas inerentemente humanos que todos nós compreendemos: amor, perdão, luto, medo, paternidade, vício, abuso, responsabilidade, sobrevivência, etc.
As histórias que vivemos na vida real que são dignas de um livro baseiam-se sempre em temas desses. As melhores histórias da nossa experiência de vida são sempre aquelas que originaram de um coração partido ou de um momento de transição ou mudança na nossa vida (como a experiência de sairmos de casa dos nossos pais, ou a experiência de perdermos alguém ou de termos um filho).
São experiências que todos nós compreendemos. São experiências inerentemente humanas. São experiências com as quais todos nós temos capacidade de nos identificar.
Eu não tenho filhos, mas entendo o que é passar pelo término de um relacionamento. Eu compreendo o que é o medo de falhar, e a ansiedade de ser adolescente. E eu compreendo, porque passei por experiências de vida que me ensinaram isso. E essas experiências são as minhas histórias. Eu sou o protagonista dessas histórias.
Eu compreendo a ansiedade de ser adolescente, de viver esse período de descoberta e de medo de tomar más decisões em relação ao meu futuro, porque um dia fui adolescente. É uma experiência que todo e qualquer humano vive e entende.
Então, quando estamos a escrever a sinopse da nossa história, estabelecemos que o nosso personagem está ou está prestes a atravessar uma sequência de eventos. Isso é importante. Mas mais importante é definirmos o que é que isso significa: que história é que estamos verdadeiramente a contar?
É uma história sobre alguém com medo de perder outra pessoa? Ou é uma história sobre alguém que já perdeu outra pessoa e está agora a passar pelos vários estágios do luto? O que é que estes acontecimentos significam para o personagem e de que forma é que esses acontecimentos vão ajudá-lo a crescer enquanto pessoa e enquanto humano?
Qual é a experiência inerentemente humana que o nosso personagem está a viver?
Lembrando que a temática da nossa história é um conjunto de temas. E é importante sublinhar isso, porque é fácil dizermos que a nossa história é uma história de amor. O que é difícil é estabelecer de que forma é que essa história de amor afeta os personagens que têm determinados defeitos que originaram de determinados traumas ou vivências.
Muitas vezes, uma história de amor é, na verdade, uma história de aceitação. Ou é uma história sobre medo. Ou é uma história sobre perdão. Ou, então, o mais certo é tratar-se de uma história de amor, aceitação, medo e perdão. Porque não existem histórias somente de amor, porque o amor é uma experiência humana que envolve muitos outros temas.
E é importante que isso signifique algo para os personagens, especialmente para o protagonista de uma história, porque aquilo que nos muda e que nos permite crescer é aquilo que nos é importante. O meu coração só partiu porque a relação que acabou era importante para mim, e a dor dessa experiência é o que me permitiu crescer.
Mas dentro dessa história existe ego, abuso psicológico, más decisões, traição, medo, desconfiança, luto, culpa... E tudo isso são exemplos de uma temática. A sinopse só explica, essencialmente, de que forma é que estes temas são explorados e/ou vividos pelos personagens de formas que podem ser mais ou menos conscientes para eles.
Eu tinha consciência da desconfiança, mas não tinha consciência da culpa, nem tinha total consciência do medo. Alguns desses elementos eram mais inconscientes para mim, mas não deixaram de influenciar essa minha história.
Ou seja, nós, enquanto autores/as, estabelecemos a temática da nossa história, mas nem todos os temas dentro dessa temática precisam de estar claros para os leitores, só para nós que os estabelecemos antes de começarmos a escrever a história.
Aliás, e isto é genuinamente fascinante, muitos dos temas que vamos explorar não vão estar claros para nós. Muito do significado que damos às nossas experiências de vida está no nosso subconsciente e só se manifesta durante a escrita da nossa história.
Por exemplo, vamos escrever uma história de amor sobre uma personagem que está a passar pelo término de relacionamento com o namorado, e estabelecemos que a nossa temática inclui temas como perdão, amor e medo.
Mas, provavelmente, só anos depois de publicarmos o livro é que reparamos que a nossa história também está a explorar o tema de maternidade. Nós, enquanto escrevíamos, estávamos também a explorar esse tema de forma subconsciente.
Talvez por um medo implícito e pouco claro para nós de sermos pais, ou alguma mágoa que guardávamos da nossa relação com os nossos pais (e o contraste dentro disso!) que estava a refletir-se na nossa história.
Muitas vezes, não temos consciência, ou total consciência, da origem dos nossos medos ou dos nossos defeitos. Ou, até, daquilo que é importante para nós e o significado que damos a essa importância. Nós, humanos, conseguimos ser fascinantes.
E, enquanto autores/as, é esse o nosso trabalho: explorar e documentar a experiência humana, em busca de a compreender e de nos compreendermos melhor a nós mesmos.