O uso de IA na criação de um livro

Rodrigo G. Gomes

A Bárbara é a designer da editora Edições Esgotadas, e é tão apaixonada pelo seu trabalho como nós somos pela escrita. E se vamos entender de que forma é que a inteligência artificial influencia o nosso trabalho, é importante entendermos de que forma é que a IA influencia o design de livros.

Eu preparei, então, 4 questões para a Bárbara. Ela disponibilizou-se para responder e partilhar a sua perspetiva, enquanto designer, de quem está crucialmente nos bastidores a fazer as coisas acontecerem na editora onde trabalha.

De que forma é que a IA já está, atualmente, a afetar ou influenciar o design de livros? Que partes da formatação ou paginação de um livro é que a IA já é realisticamente capaz de fazer bem (em comparação com o que ainda precisa da mão humana de um/a designer)?

"No que diz respeito à paginação e à formatação, considero que a IA ainda não apresenta um contributo verdadeiramente significativo. Cada projeto editorial possui características muito próprias e exige uma abordagem pessoal e humana, difícil de automatizar.

O processo de paginação implica experimentação, análise e sucessivos ajustes, desde os primeiros esboços até à definição da composição final. Nesse sentido, considero que esta dimensão do trabalho continua a depender fortemente da sensibilidade e das decisões do designer."

Da tua perspetiva enquanto designer, de que forma é que a influência da IA vai afetar ou influenciar o design de livros no futuro? De que forma é que ela vai evoluir dentro do mundo da autoria?

"Em contexto profissional, acredito que a IA pode funcionar como uma ferramenta de apoio, mas não como um substituto integral do trabalho de edição e design. No tratamento e manipulação de imagens, por exemplo, poderá representar uma ajuda significativa, desde que utilizada de forma consciente e criteriosa.

Considero que a intervenção humana continua a ser essencial no processo criativo, uma vez que a arte e o design envolvem escolhas subjetivas, intenção, sensibilidade e identidade, aspetos que dificilmente podem ser reduzidos a um processo exclusivamente automatizado."

Temes que a IA possa substituir designers de livros completamente? De que forma é que um/a designer continua e/ou continuará a ter importância dentro do mundo da autoria? Acreditas que chegaremos ao ponto dos autores/as terem total autonomia no design dos próprios livros com a ajuda de IA?

"Tal como referido anteriormente, não considero que a IA possa substituir o papel do designer. Poderá, naturalmente, auxiliar determinadas etapas do trabalho e otimizar alguns processos, mas não substituir a totalidade do percurso criativo.

A criação de um livro envolve várias fases, desde os primeiros esboços e estudos gráficos até à concretização do produto final, sendo que cada uma dessas etapas pressupõe decisões criativas, conceptuais e técnicas que beneficiam diretamente da intervenção humana."

Consideras válido ou questionável o uso de IA na criação de livros, no que toca a, por exemplo, criação de capas? Quais são os maiores riscos de usar IA na criação de livros? Já usas IA para algum aspeto do teu trabalho?

"Apesar de, no meu trabalho, recorrer à IA, nomeadamente em algumas propostas ou imagens destinadas a capas, considero que esse processo não deve limitar-se à utilização direta e integral do conteúdo gerado.

Na minha perspetiva, poderá ser interessante aproveitar determinados elementos como ponto de partida, referência ou matéria para posterior transformação, mas não simplesmente utilizar a imagem final exatamente como foi produzida.

Considero que a utilização da IA deve ser feita de forma consciente, crítica e responsável. Existem várias questões associadas a estas tecnologias que não devem ser ignoradas, desde o seu impacto ambiental até às questões éticas relacionadas com a utilização de obras e referências produzidas por outros artistas nos processos de geração de imagens.

Muitas dessas obras resultam de processos criativos intencionais, pessoais e profundamente ligados à identidade dos respetivos autores.

Não considero, necessariamente, que a sua utilização deva ser rejeitada, mas acredito que deve existir consciência sobre a forma como é utilizada, sobre os limites e sobre os possíveis impactos que poderá ter no contexto artístico, profissional e ambiental."